Do ferro aos narcisos amarelos

 


Jucenir  era conhecido por sua imponente figura de fisiculturista. Seus músculos eram verdadeiras montanhas esculpidas, resultado de anos e anos de dedicação aos exercícios, esteroides e anabolizantes . Sua vida, desde cedo, girava em torno da busca pela perfeição física, e ele não media esforços para alcançá-la. Todos os dias, mergulhava em uma rotina intensa e exaustiva. Treinava incansavelmente, empurrando seus limites cada vez mais além. 

Consumia quantidades surreais de alimentos, numa tentativa de alimentar o corpo que se expandia a cada dia. Tudo em prol da imagem ideal que ele tanto venerava. Além disso, Jucenir era obcecado pelos remédios e suplementos considerados quase miraculosos. Ingeria pílulas coloridas e bebidas energéticas em quantidades alarmantes, acreditando piamente que se tornaria uma verdadeira máquina de músculos. 

 No entanto, assim como para todos os outros, a Covid-19 foi um golpe doloroso para Jucenir. A doença varreu o mundo, levando consigo pessoas queridas, incluindo sua mãe, a mulher, seus filhos e amigos próximos. Contudo, essas não foram as perdas que lhe causaram tanto sofrimento e melancolia. 

No entanto, mesmo com todas as perdas humanas, Jucenir  não percebia a ironia da situação. Enquanto todos ao seu redor estavam focando em sobreviver à doença e encontrar consolo nas memórias dos entes queridos perdidos, estava preocupado apenas com sua aparência física. 

 As pessoas ao seu redor tentavam convencê-lo de que a beleza não está apenas na aparência exterior, mas sim nas atitudes, no amor e na empatia. Mas Jucenir parecia não se importar. Ele continuava a malhar obsessivamente e a tomar seus remédios.

Quando viva, Elisiane, sua mulher, adentrou no quintal da casa, transformada em academia, e desabafou:
- Querido, precisamos conversar sobre algo que tem me preocupado ultimamente. Sinto que nosso relacionamento está sofrendo de um desinteresse sexual da sua parte. Eu realmente amo você e valorizo nossa conexão emocional, mas a intimidade física é uma parte importante de qualquer relacionamento saudável.

Ele não falou nada. Apenas bufou exausto com incessante movimento das anilhas.

- Eu entendo que a vida pode ser complicada, e também passo por momentos de estresse. Mas sinto falta daquela conexão especial que tínhamos no início do nosso relacionamento. É importante para mim sentir essa proximidade e paixão entre nós.

Continuou sem falar nada. Pegou a garrafa de dois litros de água, dando vigorosos goles e derramando o restante sobre a cabeça.

A perda e a tristeza invadiram sua vida, quando, estranhamente, começou a encolher. Seus músculos imponentes foram aos poucos definhanco, tornando-se esboços do que já foram um dia.

 O homem que se orgulhava de sua própria força e aparência estava se desmoronando diante dos próprios olhos. Envolto por uma profunda depressão, Jucenir sentiu-se cada vez mais distante da realidade. 
Seu corpo definhou e o fez mergulhar em um mundo delirante. Ele se tornou um ser etéreo, à deriva entre a vida e a morte. Enquanto estava deitado em seu leito, Jucenir notou que sua pele, agora pálida como a lua, adquiriu uma transparência quase sobrenatural. 
O olhar estava perdido para uma janela para um universo desconhecido, onde personagens incomuns e eventos inacreditáveis habitavam. 

Aos poucos, Jucenir se desvaneceu em meio ao nevoeiro que rodeava seu corpo. Seu espírito, liberto das amarras terrenas, uniu-se ao mundo dos sonhos e da fantasia. Ele se tornou um personagem de seus próprios devaneios, vagando por territórios desconhecidos. Seu corpo foi encontrado flutuando no rio próximo à sua casa, cercado por narcisos amarelos e com um sorriso nostálgico em seu rosto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Madalena, a mulher de cabelo de fogo

Sedução e mistério no Parque dos Horrores

A incrível invasão dos aliens na Praia do Futuro