Entre mentiras e paixões: o encanto dos embustes


Raquel, a judia, sempre fora uma mulher cheia de mistérios e encantos, pertencente a uma família de origem judaica sefardita que havia se estabelecido em Fortaleza há muitas gerações. Sua vida na cidade brasileira era tranquila e rotineira, marcada por suas paixões pela literatura e pelas suas origens. Um dia, algo inesperado aconteceu. 

Raquel decidiu retornar a Israel, sua terra natal, por razões desconhecidas para todos. Ela vendeu sua casa em Fortaleza, deixando para trás uma série de objetos pessoais e, o mais importante, uma vasta biblioteca repleta de livros raros e preciosos. Ao partir, Raquel entregou as chaves da casa à sua empregada doméstica, uma mulher sábia e dedicada chamada Maria. A relação entre elas sempre fora respeitosa e cheia de cumplicidade. Maria, uma mulher autêntica e simples, agora se via responsável pela guarda da casa e da biblioteca de Raquel. 

 Ao adentrar a casa, Maria se sentia fascinada por todo aquele universo de conhecimento que se revelava perante seus olhos. Ela sabia que, embora não tivesse frequentado a escola, seu coração batia forte pela sabedoria contida nos livros. Sentia-se pronta para assumir o papel de guardiã daquela biblioteca. Maria, sabendo que iria precisar de ajuda para cuidar da casa e da filha, decidiu mudar sua identidade. Ela assumiu o nome de Raquel, a verdadeira dona da casa e da biblioteca. Maria estava ciente de que, ao assumir um nome tão importante, sentiria nas veias o poder dos livros e a carga de responsabilidade que trazia consigo.

 Com o passar do tempo, Maria se transformou em Raquel. A simplicidade de sua origem não a impediu de absorver todo o conhecimento contido nos livros. Ela lia incessantemente, em busca de sabedoria e compreensão, honrando o legado deixado por Raquel, sua antiga patroa. A pequena filha de Maria cresceu em meio àqueles livros, absorvendo as histórias e os ensinamentos que eles traziam consigo. A menina herdou a paixão pela leitura de sua mãe, alimentada pela magia que permeava aquele ambiente. À medida que os anos se passaram, a casa foi se enchendo de memórias e experiências compartilhadas. As paredes eram testemunhas de histórias que se misturavam entre o real e o imaginário. Mas sempre havia uma certeza: a presença de Raquel, mesmo distante, ainda estava lá, guiando e protegendo aquela família.

Raquel, ou melhor, Maria, começou a receber visitantes curiosos, que vinham não apenas para conhecer a famosa biblioteca, mas também para ouvir as histórias que ela compartilhava. Sua voz era envolvente e cheia de emoção, transportando seus ouvintes para os mundos que ela descobria nas páginas dos livros. Maria falava como Raquel, às vezes expressava algumas frases em hebraico e inventava uma história de como sua fugiu devem campo de concentração nazista. 

Um dia, ela conheceu um coronel reformado do Exército, conhecido pelo temido nome de coronel Almeida, que defendia abertamente a supremacia branca, que não era o caso de Maria, o amor à Pátria, que não era o caso de Maria, e anticomunismo, que Maria sabia vagamente como algo condenável por meio dos livros de Jorge Amado e Antônio Callado. Mas o coronel, que era igualmente um farsante pois chegou sequer a cumprir o serviço obrigatório nas Forças Armadas ao completar 18 anos, encantou-se pela casa e pelo dinheiro mensal enviado pela verdadeira Raquel. Ele veio morar na casa trazendo uma mala com roupas e um revólver que contava ter sido o mesmo que usava no Exército.

A mentira de ambos era descoberta em conta gotas no dia a dia.
- Saia da minha casa seu mentiroso.
- você nunca teve casa. Respondeu o homem.
A adolescente tudo ouvia. Não suportava mais as brigas diárias, o mundo cabotino, os ardis dos estelionatários. Uma noite, enquanto o casal dormia na cama. Ela pegou a arma sobre a cabeceira e deu um tiro na cabeça do coronel e depois na de sua mãe.

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