O buscador da serenidade


 Por muito tempo, as noites  eram tranquilas na pequena cidade de Riacho Doce, no sertão nordestino. O silêncio era quebrado apenas pelo som distante dos grilos e o barulho suave do vento soprando nas árvores. O povo dormia cedo é apenas jovens e trabalhadores do canal de transposição se aventuravam pela em busca de bebedeira e diversão.


 Guarniere era um morador que se destacava entre os demais da localidade. Afinal, havia trocado uma próspera carreira de corretor da bolsa em São Paulo para ser um modesto agricultor familiar de produtos orgânicos. Uma vida simplória, mas plena de paz. Tinha saudade sim da gastronomia diversificada  da capital paulista, dos familiares residentes no interior. onde costumava visita-los e aproveitava para pescar e caçar. 

Guarniere era um homem comum que havia passado a maior parte de sua vida imerso no ritmo acelerado da cidade. Ele era alto, com cabelos escuros e olhos expressivos. Sua pele estava ligeiramente bronzeada pelo sol e suas mãos, antes ágeis digitando em um computador, agora eram calejadas pelo trabalho na terra. Quando decidiu abandonar a agitação urbana e se mudar para o campo, ele deixou para trás as camisas sociais e os ternos elegantes. Agora, vestia jeans surrados, uma camisa polo  e um chapéu de palha para protegê-lo do sol. 


Seus passos eram mais lentos e firmes, mostrando uma confiança tranquila adquirida ao longo do tempo. Seu rosto exibia uma paz serena enquanto ele contemplava o vasto horizonte rural que se estendia diante dele. Seus olhos brilhavam com a admiração da natureza em sua forma mais pura - campos abertos, colinas verdejantes e árvores majestosas. Ele se sentia conectado à terra, aos ciclos das estações e ao poder restaurador do silêncio. O homem desenvolveu um amor profundo pela vida simples e pelo trabalho na terra. Seus dias eram preenchidos com as tarefas do campo - arar a terra, plantar sementes, cuidar dos animais. Suas mãos habilidosas agora cultivavam a própria comida que ele consumia, criando um vínculo especial entre ele e a natureza. E o principal. Proteger, cuidar e amar seu filho Daniel.

A mulher não quis acompanhá-lo mas trouxe consigo seu único filho. Daniel era um jovem autista que tinha uma sensibilidade auditiva extrema. Isso foi um problema em São Paulo e continuou sendo em Riacho Verde com o incremento dos de operários na obra hídrica.

A música alta do bar local, com seu volume ensurdecedor, estava enlouquecendo Daniel e tornando sua vida insuportável. Guarniere havia tentado falar com o dono do bar várias vezes, pedindo-lhe para baixar o volume da música, mas suas palavras caíam em ouvidos surdos. 

A paciência do pai  estava se esgotando e ele sabia que precisava tomar uma atitude drástica para proteger seu filho. Uma noite, enquanto Daniel se debatia na cama, incapaz de escapar dos sons perturbadores, Guarniere contemplou o rifle, um presente de seu irmão ex-combatente de grupos milicianos, como se auto declarava. 

Decidiu que a única maneira de resolver esse problema seria eliminando o dono do bar de uma vez por todas. No dia seguinte, Guarniere  começou a planejar meticulosamente seu ato. Ele pesquisou sobre o dono do bar, descobriu seus hábitos diários e sua rotina. Sabia que precisava ser cuidadoso para não levantar suspeitas. 

 Eventualmente, chegou o dia que  escolheu para agir. Esperou até que o dono do bar estivesse sozinho, trancado em seu escritório, contabilizando o dinheiro da noite anterior. Guarniere  entrou sorrateiramente no bar portando uma maleta e seu dulirigiuvao banheiros. Rapidamente, montou o rifle com o silenciador. Tudo isso acontecia  despercebidamente pelos clientes distraídos. 

 Ao chegar ao escritório,  encontrou o dono do bar em um estado de euforia, mergulhado em sua própria ganância. Ouvindo aquela música alta que há tanto tempo enlouquecia seu filho, sentiu uma raiva incontrolável tomá-lo por completo. Sem pensar nas consequências, ele se aproximou silenciosamente do dono do bar e, usando um abafador no Ak 47atirou friamente na cabeça do comerciante. 

Sem  mais a maleta do rifle saiu do escritório, deixando a cena do crime para trás. Sabia que suas ações teriam consequências, mas estava disposto a enfrentá-las para proteger seu filho. Ele sabia que agora Daniel poderia finalmente encontrar paz. Enquanto desaparecia nas sombras, rumores começaram a se espalhar pela cidade sobre a morte do dono do bar.

 Alguns sentiam pena do homem assassinado, enquanto outros, secretamente, compartilhavam um sentimento de alívio. Ninguém jamais descobriu a verdadeira identidade do assassino. Guarniere  continuou a cuidar de seu filho, mantendo seu segredo enterrado profundamente dentro de si mesmo. Para ele, o fim justificava os meios, pois não havia nada que não faria por seu amado filho autista. E assim, a pequena cidade de Riacho Verde permaneceu em silêncio.



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