O juramento e o legado da esterilidade


 

Juscelino era um homem peculiar. Dono de uma pequena sapataria na movimentada Barra do Ceará, em Fortaleza, ele tinha fama de bon vivant. Sempre vestido com roupas elegantes, sapatos impecáveis e um sorriso galante no rosto, era uma figura marcante em meio à simplicidade do bairro. Apesar de sua personalidade cativante, Juscelino carregava consigo um ceticismo inabalável em relação à humanidade. Ele observava o mundo ao seu redor, envolto em conflitos e desigualdades, e questionava se trazer uma nova vida ao mundo seria uma escolha responsável. 

 O comerciante recusava-se a dar continuidade à sua geração, temendo que ela prosperasse em meio ao caos. Sua visão distante da paternidade vinha da convicção de que a humanidade estava fadada a repetir os mesmos erros do passado, condenando-se a um ciclo infinito de dor e sofrimento. 

- A posteridade termina em mim. Dizia.

 Então, um dia, já passados dos 50 anos, enquanto percorria as ruas conhecidas da Barra do Ceará, Juscelino conheceu Claudia. Ela era uma mulher que um dia havia sido um homem, e que passara por uma transição de gênero do masculino para o feminino. Claudia tinha uma presença magnética e um olhar cheio de autenticidade. O encontro entre Juscelino e Claudia foi como um encontro entre opostos complementares. 

Enquanto ele era cético e distante, ela emanava vida e esperança. Claudia, com sua sinceridade e coragem, abriu um mundo novo para Juscelino. Eles se apaixonaram, mergulhando em um relacionamento cheio de paixão e conexão. À medida que o amor florescia dentro de ambos, Juscelino começou a lamentar profundamente não poder ter filhos biológicos. Ver Claudia ao seu lado, uma mulher que havia passado por uma transformação tão significativa, despertou em Juscelino uma vontade adormecida de ser pai. Ele se viu pensando em como seria ter uma família com Claudia, educar seus filhos e ensiná-los a enfrentar os desafios do mundo de uma maneira diferente. 

À medida que o tempo passava, Juscelino e Claudia adotaram uma criança chamada Márcio. No entanto, Marcinho, como era chamado, tinha uma personalidade desafiadora e nunca se conformou com o fato de ter sido abandonado pelos seus pais biológicos. Ele se ressentia profundamente por ter sido deixado para trás e acreditava que nunca encontraria seu lugar no mundo. Além disso, via Juscelino e Claudia como pessoas excêntricas e bizarras. Ele não conseguia compreender a maneira como eles viviam suas vidas, desafiando as convenções sociais e encontrando alegria em pequenos gestos de amor e generosidade.

Mal saído da adolescência, Marcinho começou a ter ideias de se apossar da sapataria do seu pai adotivo. Em sua mente descontente, ele imaginou uma maneira de forçar Juscelino a passar o negócio para ele. Esses pensamentos sombrios dominavam a mente,  obscurecendo sua visão e distorcendo a realidade.

As discussões eram diárias, apesar da idade já avançada do pai. Claudia apenas chorava. Um dia, ele pediu a chave do carro ao pai. Esse a entregou sem haver nenhuma rusga, nenhum conflito. Prudentemente. dirigiu para a ponte em plena hora do crepúsculo. Precisava pensar melhor. Sua vida tinha que ser normal e não um circo de horrores como era a de seus pais. Ele parou o carro num acostamento da ponte para tirar uma foto do por do sol. Isso sim era um verdadeiro espetáculo. De repente, foi tomado por um soco e por uma pistola esfregada em seu rosto.

- Perdeu. Disse o assaltante.

Quando Marcinho quis dar a partida no carro para fugir do bandido, balas seguidas lhe vararam a cabeça.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Madalena, a mulher de cabelo de fogo

Sedução e mistério no Parque dos Horrores

A incrível invasão dos aliens na Praia do Futuro