O segredo do general escondido a sete chaves


 - Papai, precisamos conversar sobre os papéis pregados nas paredes do seu quarto. Estou um pouco preocupado com isso e gostaria de entender o motivo.


- O que você quer saber? Esses papéis são importantes para mim, me ajudam a lembrar de coisas.

-  Eu entendo que eles possam ser úteis para você, mas acabam deixando o quarto desorganizado. E além dos papéis, também preciso falar sobre as armas que estão espalhadas pelo quarto. 

-  Eu não quero me desfazer delas... São minhas armas, meu jeito de me proteger.

O general José Carlos dos Santos, 81 anos,  estava envelhecendo pateticamente há algum tempo e  a demência começava a corroer sua mente, agravada com o divórcio. A cada dia, sentia-se afastado de seu próprio ser, enquanto fragmentos de memória se perdiam nas sombras do esquecimento. Enquanto o tempo avançava, os filhos de José Carlos entraram em uma acirrada disputa pelo controle de sua vida e patrimônio. Sentiram-se ameaçados pela lucidez restante. José Carlos percebia o jogo de poder entre seus filhos, mas sua lucidez, aos poucos, desaparecia como fios de uma teia frágil.  

 O general resistia à manipulação, ciente de que sua memória falhava. José Carlos, no entanto, lutava para manter sua independência, mesmo sabendo que sua memória estava se deteriorando. Com a consciência de que não pode confiar totalmente em sua própria mente, ele tomou uma decisão intrigante para proteger um segredo que guardava a sete chaves. 

O quarto  era um reflexo do caos que se instalava em sua mente. Ao entrar no aposento, era possível notar a desordem reinante, com objetos espalhados por todos os cantos. As paredes, antes impecavelmente pintadas, agora estavam manchadas e descascadas. Quadros tortos e desalinhados pendiam nas paredes, alguns até mesmo quebrados. O papel de parede, outrora elegante, estava rasgado e desbotado em vários pontos. 

 No centro  uma cama desarrumada e amarrotada, com lençóis desalinhados e cobertores jogados de qualquer maneira. Sobre a cama, pilhas de papéis e documentos se acumulavam, misturados a fotografias antigas e medalhas de honra. Uma escrivaninha de madeira maciça, outrora organizada, agora estava coberta de papéis amassados e canetas sem tampa. Ali, encontravam-se anotações confusas e sem sentido, escritas em letras trêmulas e ilegíveis. Mapas militares, antes meticulosamente dobrados, estavam espalhados pelo chão. Prateleiras repletas de livros e troféus estavam desordenadas, com alguns itens caídos e quebrados. Caixas de recordações, cheias de fotografias e lembranças se misturavam a roupas amontoadas e empoeiradas. A iluminação do quarto era fraca e sombria, com cortinas pesadas que impediam a entrada da luz natural. 


Naquela manhã, o filho filmou o quarto, pois entendia que os papéis e as armas poderiam ajudar no processo de interdição. Mas temia a fúria do pai. Havia escritos com muitos números. Seriam números de bancos? Agências? Número de contas? Nomes de lugares desconhecidos e mapas. Seriam codinomes? Senhas? O general foi atuante no golpe militar de 1964 e aqueles papéis poderiam ser provas de ações cruéis. O discernimento conduzia para que não publicasse o vídeo em redes sociais. À medida que a demência progredia e a velhice o enfraquecia, José Carlos tinha consciência de que seu tempo estava se esgotando. 

Nos últimos dias de sua vida, Carlos  vivia em um estado de solidão.  A cama agora era o seu refúgio solitário. Passava  a maior parte do tempo deitado, perdido em pensamentos desconexos e memórias fragmentadas. Seu corpo enfraquecido lutava contra a doença que o consumia. Até que, em um triste momento, seu coração falhou. Uma parada respiratória seguida de um infarto silenciou sua existência.  No momento final da vida, ele deixou instruções rigorosas para que uma caixa fosse aberta somente após sua partida deste mundo. E assim, no dia do seu funeral, diante de seus filhos, a caixa foi aberta solenemente. Eles esperavam descobrir algum segredo financeiro, uma forma de dominar ainda mais o que restava do espólio de seu pai. 

No entanto, para surpresa de todos, encontraram apenas o nome de uma mulher: Elenice. Nunca ouviram falar. Era alguma filha fora do casamento? Alguma senha do serviço de inteligência militar? Como saber? Os antigos amigos, todos da caserna, estavam mortos. E ainda que fossem vivos nada falariam, pois era assim o código de honra. Contudo, e apesar do mistério, a revelação causou surpresa, confusão e até algum alívio. Os filhos perceberam que ainda havia segredos não revelados de seu pai, mas agora esses segredos sequer permaneceriam na memória cinzenta do general. 

Carlos escreveu o nome de sua amante em um pequeno pedaço de papel e o manteve sempre consigo, na caixa trancada a qual carregava consigo a todo momento. Essa amante, cujo nome nem mesmo seus próprios filhos conheciam, foi a única fonte de conforto e felicidade do general, boa parte do tempo platonicamente. Isso durante 40 anos após sua morte. 

Elenice, codinome Simone, era a lembrança de uma paixão avassaladora que transcendia suas obrigações familiares e as amarras de uma vida militar rigorosa. Ela morreu em 1974, tísica e ainda prisioneira em um porão do DOI-CODI do então  capitão. 
O general sabia que seus filhos, em sua busca voraz pelo controle de seus bens e decisões, iriam desprezar e escarnecer  essa relação secreta e idealizada. Ele também sabia que suas memórias dessa amante estavam se dissipando, mas a essência desse amor permaneceu em algum lugar dentro de sua mente confusa.

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